terça-feira, 22 de dezembro de 2009

JOÃO E ADELINA- CONTO




O tempo acaba o ano, o mês e a hora
A força, a arte, a manha, a
fortaleza:
O tempo acaba a fama e a riqueza
O tempo o mesmo tempo
de si chora:
O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza
Mas não pode acabar minha tristeza
Enquanto não fizerdes vós,
Senhora.”
— Luís de Camões


Conheci Adelina beirando os oitenta anos e os olhos azuis eram duas pedrinhas embaçadas pela catarata. Os cabelos longos  perdiam-se numa extensa trança rala que descia, aonde terminava o lenço sobre a cabeça. Adelina, já curvada pelo peso dos anos, quase não sorria: era só uma velhinha. Para nós, os outros, ela precisava apenas de uma cama encostada na parede onde prendesse as fotos em marrom e bege. Fotos com estórias cheias de risos e lágrimas. 

A estória de Adelina nascia de um grande mosaico colorido que fui formando ao longo dos anos. Isto não é conversa pra criança, era o que eu ouvia enquanto a porta ia avançando contra o meu nariz.

 Dele tenho apenas o nome: João Ataíde era apenas um nome perdido nas bocas das tias. A foto pregada na parede da cama mostrava um homem, de média estatura, segurando um livro grosso com papéis saindo pelas páginas. A fotografia retratava um professor de escola primária do norte de Portugal. 

Eu olhava do outro lado da cama o homem incomodado sob a luz do sol. Minha avó Magnólia dizia que o pai atravessara o oceano em busca de melhores dias em terras brasileiras, encontrara nas dunas de areia do Espírito Santo a brasileira de olhos azuis.

 Os fatos que conheci ,depois vieram embaralhados. Sei que João e Adelina tiveram quatro filhos e que a moça da praia não fora o modelo de mãe e esposa que ele sonhara. Os portugueses que aqui aportaram, no fim do século XIX, eram dotados de tino comercial . Todos os Manuéis e Antônios de minha infância possuíam prósperas quitandas ou padarias. João Ataíde era um homem voltado para os livros; varava as madrugadas sob luz da lamparina; lia e anotava incessantemente. A esposa não passara das carteiras do grupo escolar e não se seduzia por livros com estórias transbordando dentro. Assim foi formando-se, pela erosão dos dias, um imenso buraco entre os dois. De um lado Adelina e seu cesto de peixes, do outro João e os poemas dos livros. Hoje, entendo porque as mulheres da família apontavam Adelina como o avesso do pano. Todas do álbum de fotografia tiveram muitos filhos e enfrentaram altivas os problemas, que entram pela porta com a filharada e pouco dinheiro. Todas permaneceram de pé, até o último ato.

Um dia, a moça da praia olhou o professor do outro lado da sala. Viu apenas um terno puído com um homem franzino. O som lusitano da voz já não lhe era canção ao vento. Sonhara com um português comerciante e uma mesa farta. Cortinas que voassem em rendas pela janela e mais que peixe miúdo e guandu sobre a mesa. Distribuiu os filhos entre os vizinhos, prendeu os cabelos numa trança bonita e bateu a porta. Neste ponto perdemos João Ataíde. Nunca perguntei às tias o que ele fez da vida. Voltou para o Porto? Chorou as tardes na praia? Continuou lendo Camões sob a luz da lamparina? Na verdade, perdemos João e Adelina. Ela só apareceu diante dos filhos muitos anos depois do fim da Segunda Guerra. Um dia Magnólia, a filha, abriu a porta da casa e lá estava um cesto vazio. Em pé, ao lado do cesto: uma senhora de olhos azuis.

Quando conheci Adelina, beirando os oitenta anos, já se chamava Dindinha, usava xale e arrastava um chinelo grande. Dizia meu nome com muitos “is” no meio e falava que eu devia ser professora. Ensinar a ler , dizia, é coisa de gente abençoada, gente de alma boa.

Nós olhávamos juntas o jovem avô da fotografia. Acho que ela pensava que aquele imenso buraco na sala poderia nunca ter crescido. Começamos a aprender pela dor e pelo que perdemos. O amor de João e Adelina não morreu, mudou-se para algum lugar neste universo imenso. Acredito, procurando na vastidão do céu pontilhado de estrelas, que um dia ela vai encontrá-lo no pátio da escola e estender-lhe um velho poema português. O rapaz ficará comovido com o interesse da jovem por literatura lusa e trocarão idéias afins. Aprendemos também pelo riso que vem junto com o que reconstruímos.

L.A
9ª Antologia dos AnJos de Prata- Contos e Crônicas, Editora All Print

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

VERDE CAMPUS



Luiz Martins da Silva

Luz dourada sobre escadarias

Na tarde olímpica do quase-silêncio.

Todos se foram, vida nova,

De férias ou de novas esperanças.

Contemplo a imensidão verde-esmeralda

E os buquês das florações em aquarela.

Por instantes, burburinhos soltos pelo vento,

Eu os quase ouço no sobrevoo dos alaridos.

Os degraus, quantos passos neles impressos!

A caminho do futuro, as apressadas gerações.

Estranha visão universitária, solidão incômoda.

Mas, daqui a pouco, estouros de novas manadas.

Percorro as repisadas passarelas,

Agora toscas, de raízes em erupções.

Ainda há algo de juvenil nas recentes podas,

Refreios aos impulsos dos troncos nos jardins.

Doce melancolia de sucessivas estações

Cada qual com o advento de brotos estudantis.

Traz esta brisa um torvelinho de matérias desfolhadas.

Ou seriam da última formatura o eco de tantos aplausos?

sábado, 12 de dezembro de 2009

Um Sopro de Quintana


"No fim tu hás de ver que as coisas
mais leves são as únicas que o vento
não conseguiu levar:
um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso,
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia
o próprio vento"

(Mário Quintana)


Gentilmente enviado por Eduardo Poisl

sábado, 28 de novembro de 2009

O IPÊ AMARELO


Um Ipê Amarelo foi cortado e seu tronco foi transformado em um poste. Após o poste ser fincado na rua, foram instalados os fios da rede
elétrica. Eis que a árvore se rebela contra a maldade humana e resolve não morrer. Mas a reação foi pacífica, bela e cheia de amor. Rebrotou e encheu-se de flores.
Assim é a natureza...vencedora !

Porto Velho - Rondônia - Brasil

Gentilmente enviado por Sara Almeida Campos- DF

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

CODINOMES GAIVOTA




“Vê mais longe a gaivota que voa mais alto”
                                                     - Richard Bach

Dedicado à Rosângela A.



Um dia deixaremos o rochedo e cruzaremos o mar.
Sob os pés a constelação das águas, sobre as cabeças um arquipélago de estrelas.
Numa manhã entre os nevoeiros e a primeira luz do sol,
 lá estará a areia da praia .
O bando  , despertando ainda, nós o reconheceremos.
Aqui estarão todas as lições de voo e os desafios de recolher das águas, os peixes.
 Nossos nomes?
Fernão, João, Francisco, Lucas, Anas, Magnólias, Constâncias, Alices, Teresas, Adelinas, Marias , tantas Marias.
  O verbo é aprender , a continuação dele é praticar.
Ninguém é mais divino que ninguém e o segredo é estar atento olhando pra si mesmo e para os outros.
Nada nos impedirá o caminho, o corpo é continuação do pensamento.
 Onde quer que o pensamento vá, é para lá que o corpo também irá.
 Nós não estamos em qualquer bando, este é o nosso bando.
É necessário aprender a voar em formação.
Um dia olharemos em volta e não haverá mais ninguém,
Iremos de um mundo a outro tão igual ao primeiro
Esquecendo imediatamente de onde viemos, não nos importando onde queríamos ir.
Quantas vidas teremos de viver antes de notarmos que há mais coisa na vida do que comer , lutar ou fortalecer o corpo?
Muitas vidas, e depois outras vidas para aprender que existe algo como a perfeição.
Outras ainda para entender que a nossa finalidade na vida é encontrar essa perfeição e passá-la adiante.
Se algum de nós atingir o nível mais alto é preciso retornar e ajudar o bando.
Nada nos impedirá o caminho.

L.A

Inspirado no  livro e filme “Fernão Capelo Gaivota”

domingo, 18 de outubro de 2009

RESILIÊNCIA, Palavra mágica


Boris Cyrulnik sofreu com a morte dos pais num campo de concentração nazista, do qual conseguiu fugir quando tinha apenas 6 anos. Depois que a guerra acabou, ele ficou vagando de um campo a outro até chegar a uma fazenda controlada por uma instituição de caridade. Durante sua permanência, os vizinhos lhe ensinaram o amor pela vida e pela literatura. Mais tarde, ele decidiu ser médico e estudar os mecanismos da sobrevivência. Hoje é psiquiatra, neurologista, escritor, psicanalista e especialista em resiliência, um conceito psicológico que define a capacidade de superar as adversidades e ser forte durante as crises. “A resiliência é o antidestino”, diz Boris. “Dá trabalho, não é fácil, mas é um espaço de liberdade interior que permite não se submeter às feridas.”
Ágata Székely
(Gentilmente enviado por Marília Campos)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A AVE DA PAZ



Contam os livros que as galinhas têm memória curta, aceitam como seu um ovo estranho. Instinto materno? Não, pura estupidez - afirmam. Dê a uma delas um ovo de pata, perua ou nasça ainda um filhote de pavão e ela vai amá-lo como um filho . Numa tarde de sol quente, na imensidão de um terreiro, ela levantará a cabeça ao menor ruído estranho e defenderá o que acredita ser seu. No molde em que Deus fez a galinha, está lá escrito - Missão: acolher o mundo. Ela faz sem distinguir estrangeiros. Tão natural para quem tem cérebro de galinha, equação insolúvel para os animais racionais.

L.A

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sobre Margaridas, Estrelas, Girassóis e Melancias- CONTO


Pouco sabemos sobre a vida secreta das plantas, o que sentem, o que pensam, como gastam seus melhores momentos. O certo é que naquele dia as margaridas estavam inquietas, movidas pelo mais feminino dos sentimentos: a curiosidade.

_ Com certeza serão girassóis, disseram.

As primeiras estrelas olhavam lá de cima o burburinho das margaridas e discordaram;

_Sem dúvidas, serão melancias! Nós conhecemos as sementes.

_ Melancias? Como vocês podem confundir? Sintam o perfume... e olha que disso nós entendemos.

Bem, como ninguém convenceu ninguém, preparam-se cada qual a seu modo para receber flores e frutos.
Muitas cartas recebeu a chuva; que viesse dia sim e dia não, mas que chegasse com delicadeza, assim sem muito barulho. Outras tantas recebeu o sol, pedindo que quando fosse por lá, passasse antes na casa da brisa, filha mais nova do vento.
À noite as estrelas guardavam os canteiros, torcendo por cada caule fininho que se estendia na terra:
_ Hum... visto assim de longe, nós estávamos certas, os caules se espalham cada vez mais pelo chão... por certo teremos frutos.

Não se cansaram da vigília as margaridas:
_ Ora, visto assim de perto, tínhamos mesmo razão... os caules se erguem do chão... por certo teremos flores.
Como o tempo tira todas as dúvidas, fez dos canteiros entrecortados, um pomar de girassóis num jardim de melancias. E porque margaridas e estrelas diminuindo distâncias acolheram flores e frutos, contam os antigos que ali nasciam flores de sabor adocicado, e no Outono o melhor mapa para encontrar o Jardim das Melancias era colocar o nariz ao vento.

A terra quando expele a semente traz à luz a vontade do semeador porque também assim são os homens; sementes diferentes com histórias diferentes. Se um ponto dessa história de vida seja nos encontrarmos aqui, neste planeta, os que aqui te encontram te acolhem.

Bem-vindos sejamos todos.
L.A

quinta-feira, 9 de abril de 2009

BRUXAS SÃO MEDONHAS



Luisa Ataide

Houve um tempo que reis, palácios, pontes e jardins compunham a paisagem daquele lugarejo, mas vieram as cruzadas e foram-se os reis e seus exércitos.
Das três torres apenas uma resistiu aos bombardeios. As flores sombreadas pelas árvores não mais cresceram e o antigo castelo na entrada da cidade passou a ser uma  casa de pedra com  paredes de musgo. Os poucos habitantes do lugar quando passavam perto faziam o sinal da cruz. O portão elevadiço não mais descera à ponte e só os corvos atreviam-se em voos rasantes.
Numa noite de violentas chuvas em que raios riscavam o céu escuro, três carroças trazendo uma tribo de ciganos ali pararam em busca de abrigo. Não foram vistos na manhã seguinte e tão pouco nas outras. Desde então ouviam-se nas noites uivos e gargalhadas - mas os dias eram de perfeito silêncio.
Era uma menina linda de cabelos cinzentos e lábios levemente arroxeados. Nascera na casa e a ela pertencia. Quase não via a luz do sol e dormia entre teias e morcegos. Desobedecia ordens maternas e da fresta da torre olhava o vilarejo. Via plantas com cores esquisitas e pequenos morcegos de asas com coloridos mais estranhos ainda.
-Serão aranhas ? Mas pela pressa que voam como fazem suas teias ? E desde quando aranhas voam ? Por certo que são morcegos!
Sua tarefa diária consistia em cozinhar a sopa da família:
 

_Dedos de centopéia, miolo de javali, perna seca de perereca, sete gotas de sangue de filhote de gato, três de urina de sapo... Ah, nunca colocar sal. O sal contém o pecado da purificação e bruxas zelam por ser ...ME-DO-NHAS !
 

Magnólia crescera entre os pátios escuros e estátua de seres tridátilos. Via da torre da casa os trigais tombados pelo vento e moças com tranças da mesma cor que eles. Riam sem motivo nenhum, só parando quando olhavam em direção à torre. Pressentiam serem observadas. Presságio não era então,  privilégio de bruxas. Magnólia achava as moças bonitas, por certo nem tanto quanto ela, pois os espelhos descascados da casa ora a mostrava muito gorda e baixa, ora de extrema magreza e queixo caído.
Mas , o desconhecido nos move o desejo. Resolveu na manhã seguinte, por certo que já era manhã, pois os morcegos se recolhiam, escorregar pela ponte elevadiça . Caiu estatelada nas águas escura do canal:
 

_Tudo por uma boa causa, afinal vou conhecer outras espécies de morcegos e ainda os corvos horrivelmente coloridos. É preciso ensinar a essa gente o que é realmente bonito.
 

Às vezes, um passo em direção à curva e nunca mais se volta. A menina caminhou horas seguidas, empurrada ao abismo do desconhecido. Admirou-se com o vento e com aquelas folhas coloridas que terminavam as plantas. Viu aquelas coisas nas árvores que alimentavam os corvos. Observou que aqueles corvos tinham cores nas penas e até cantavam. Sentiu fome e puxou da árvore o fruto:
  

- Até que não é tão ruim. Acho que vou acabar me acostumando.
 


Acostumou-se aos dias de sol e tardes de chuvas, com as estrelas e cantigas de roda. Fez amigos e tornou-se uma moça linda... de cabelos cinzentos e lábios arroxeados. Era uma moça... bem... só um pouco diferente. Conheceu um Oficial da Cavalaria que encantou -se com seu jeito melancólico e sua esquisitices. Casou-se e teve muitos filhos. Seus dias foram claros e escuros, e ainda hoje os estende como um grande lençol ao vento.
 

A cada sete Invernos retorna a casa de pedras, para revigorar as energias. Conta aos filhos histórias de bruxas, fortalezas e caldeirões. Ensinou-lhes a manipular porções para as dores da alma e a conversar com plantas e gatos. Os netos de seus netos espalharam-se pelo mundo.

É gente de conteúdo intenso que transcende a compreensão, com os dois pés no chão da realidade. É gente humilde, simplória. É gente que tem idealismo na alma e no coração, que traz nos olhos a luz do amanhecer e a serenidade do acaso. Ri, chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção suave, um bom filme, um bom livro, um gesto de carinho, um abraço, um afago. É gente que ama e curte saudades, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais. Admira paisagens. Poeira traz lembranças de chão curtido de sonhos passados. Escuta o som dos ventos. Dança a dança do mundo pelo simples prazer de dançar. É gente que tem tempo pra sorrir bondade, semear perdão, repartir ternura, compartilhar vivências e dar espaço para ternura dentro de si. Emoções que fluem naturalmente dentro do seu ser! È gente que gosta de fazer as coisas que gosta, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis, por mais desgastantes que sejam. Gente que semeia, colhe, orienta, se entende, aconselha, busca, busca a verdade e que sempre aprende, mesmo que seja de uma criança, de um pobre, de um analfabeto. È gente muito estranha as Bruxas. Gente de coração desarmado, sem ódios e preconceitos baratos. Gente que fala com plantas e bichos.Dança na chuva e alegra-se com o sol. Cultuam a lua como Deusa e lhe fazem celebrações... Eh! Gente estranha essas bruxas. Falam de amor com os olhos iluminados como um par de luas cheia. Gente que erra e reconhece, cai e se levanta com a mesma energia das grandes marés, que vão e voltam em harmoniosa cadência natural. Apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, e fazendo redentores suas lágrimas e sofrimentos. Amam com missão sagrada e distribuem amor com a mesma serenidade que distribuem pão. Coragem é sinônimo de vida, seguem em busca de seus sonhos, independentes das arguras do caminho. Essa gente, vê o passado como referencial, o presente como luz e o futuro como meta. São estranhas as bruxas! Acreditam no poder feminino e estão sempre fazenda da maternidade sua maior magia e através da incessante busca pela paz chegam à divindade de existir pelo amor da grande Mãe, a natureza. Da mesma forma que produzem um grande visual, de elegância refinada com as raias da vaidade, se vestem como verdadeiras Bruxas medievais a caminho do patíbulo. Iluminam de beleza e jovialidade o corpo físico com habilidade mágica e com facilidade transforma-se, permitindo um sóbrio aspecto de velha senhora , a depender da lua nos seu espírito...Cultuam as sagradas tradições como forma de cultuar as leis que regem o universo, passam de geração a geração a fonte renovadora da sabedoria milenar. São fortes e valentes, ao mesmo tempo humildes e serenas. São leoas e gatinhas, são muito estranhas as bruxas Com a mesma facilidade que manuseiam livros codificados , o fazem com panelas e vassouras...São aventureiras, dançam rock,valsas e polka, danças sagradas e inventam o que precisa ser inventado.Criam e recriam. Contam contos e histórias de fadas e carochinha, contam suas próprias histórias...Falam de generosidade e de todas as deidades em exercícios constantes, buscam a plenitude como propósito...Interessante essa gente, essas Bruxas. Se obrigam a tarefa de evoluir, de amar e dividir...falam de desapego em plena metrópole, em meio às tecnologias. Cantam mantras e músicas populares, mas se emocionam com as folclóricas. Mexem com ervas e chás, são primitivas e avançadas. Pulam da mesa do rei para um abrigo montanhês com o mesmo sorriso enigmático de prazer e sabedoria que iluminava as faces de suas ancestrais. Degustam um pão artesanal, receita medieval da velha senhora das montanhas, com a mesma gula que o fazem com um banquete cinco estrelas com pães supersofisticados daquela cozinha francesa. Amam em esteiras e em grandes suítes, desde que estejam felizes, pois ser feliz é sempre a única condição dessa gente estranha. É gente que compra briga pela criança abandonada, pelo velho carente, pelo homem miserável, pela falta de respeito humano. È gente que fica horas olhando as estrelas, tentando decifrar seus mistérios e sempre conseguem. Gente que lê em fundos de xícaras, em bola de cristal, em tarot, com pedras, na areia, nas nuvens, no fogo, no copo d’agua...Oram pelos elementais, anjos e gnomos. Falam com intimidade com os Deuses e o chamam para um círculo, fazem fogueira e dançam em volta...Viajam de avião, à pé, de carro e em lombos de animais, agradecendo pelas oportunidades que a vida lhes dá... agradecem por tudo até pela dor, que chamam de mãe, pois acreditam que é a forma mais rápida para a evolução... Se reúnem em escolas iniciativas que chamam de coven, para mutuamente se bastarem,se protegerem,se resguardarem, resgatar valores, estudar. Muito estranha as bruxas, muito estranha a fé que as mantém vivificadas ao longo de cinco mil anos...”
Texto entre aspa- Gente estranha, de Graça Lúcia Azevedo

domingo, 8 de março de 2009

CARVÃO EM FUNDO BRANCO- conto


estou procurando a cor, onde ela não vai


Nós, cumpre esclarecer, éramos algumas dezenas de meninos e meninas, filhos de carvoeiros, aos quais letras e números não haviam sido apresentados. Dividíamos os meses entre os secos e os que exageradamente nos mantinham em casa. O mundo entre o quintal e o outro lado do rio. Quando percebemos os movimentos de tijolos e madeiras, pressentimos que o que fosse ali erguido nos seria destinado. Mantivemo-nos em sentinela diária, num revezamento quase militar.
Quando por fim retiram os limites de proteção e vieram todas aquelas pessoas estranhas que ,escolhendo os verbos, nos disseram que a casa amarela, como um grande fruto entre as árvores, nos pertencia; sentimos desconfiança. Entramos pela primeira vez na escola em fila, as mesas estavam alinhadas e limpas. Ana passou a palma da mão sobre a que estava a sua frente, muitas vezes. Puxei-lhe a ponta do vestido com força. Caminhávamos pela sala em grupos, o chinelo não reconhecia o assoalho de madeira. Nos dias que antecederam o início letivo, nos dirigíamos à escola todas as manhãs. Sentados nos degraus do portão, como gatos que arqueando a coluna e deslizando o pêlo roçam as pernas, pedíamos a intimidade da posse. As portas mantinham-se fechadas.
No primeiro dia de aula, acordados saímos aos tropeços. Até então o desconhecido estava na outra margem do rio, agora o tínhamos ali a alguns passos de casa.Estávamos aquele emaranhado de curiosos no corredor, quando nos separaram. Do fundo da outra sala, onde foi colocada, podia buscá-la a todo o momento. Ela esticou os braços sobre a mesa e pousou o queixo entre eles. Acompanhava com os olhos as listras irregulares da madeira e o cheiro era-lhe pura correnteza. Não se abrira ao quadro negro, ao arranjo de flores sobre a mesa ou ao bordado do vestido. Seus olhos buscavam os riscos da madeira. Soou-me o alarme. Levantei-me rápido e caminhei à sala. Ana mantinha-se na mesma posição, toquei-lhe os ombros. Nada lhe disse e voltei ao meu lugar. Uma vez de volta tentei acompanhar o meu próprio desenho na madeira. Compreendi por que ela poderia ficar lá, dentro dele. A quantos de nós o risco chamara a atenção? Ana não tinha o caminho de volta.
Estamos separados do instante seguinte pelo desconhecido, e dele necessitamos. Nenhum de nós estava preparado para a caixa de lápis de cor. Nós que tínhamos as unhas sombreadas de carvão, uma folha em branco, e a pequena caixa era da criação o desafio. Dedicamo-nos ao que era até então impossível: flores, árvores, nuvens, e rios. Eles nasciam fartos e nítidos como se Deus nos compartilhasse o dom.
Lembrei-me de Ana. Em pé no meio da sala, procurei-a. Ela juntara todos os lápis na mão e num movimento único riscava a folha. Riscava com força, indo e vindo.
_ Alice, volta!
Não poderia. Lancei-me ao mar para ir buscá-la. Atravessei as duas portas e parei em pé diante dela. O conjunto de cores formava um ninho de serpentes coloridas e por breve instante quase me aliei a seu imenso abismo. Segurei-lhe o pulso.
Para nós, meninos ribeirinhos, os dias que se seguiram foram de descoberta, para Ana foram dias de cego em terra estranha. Não aceitávamos deixar os lápis na escola, ela os devolvia como sobrevivente que perde o alimento. De volta a casa punha a cartilha sobre o fogão e dirigia-se ao fundo do quintal. Parava frente à parede caiada como se encontrasse uma porta na parede branca. Com um pedaço de carvão riscava sem força um risco fino. As figuras flutuavam no branco em formas irregulares. Às vezes eu as identificava ou as via perderem-se em outras. Diariamente, após as aulas dirigia-se à parede no fundo da casa. Passamos a viver as tardes ali. Sentava-me à curta distância, sem interrompê-la. Penteava-lhe os cabelos, trocava-lhe o vestido com cuidado. Em suas pausas curtas dava-lhe alimento e água. Quando o sol incomodava abria sobre nossos ombros a sombrinha.Guardo daqueles dias esta fotografia aérea: uma menina segurando um guarda-sol, um banco de madeira, outra menina sob o guarda-sol riscando a carvão uma parede cada vez mais escura. Nunca permiti que esta parte da casa fosse pintada, com o tempo, para nós, era um grande pano escuro. Para Ana as figuras estavam lado a lado, com começo e fim. Só ela ainda via sob o carvão o fundo branco. Nos fins de tarde, ensaboava-lhe as mãos com força até sumir dos dedos o sombreado.

Nasci incumbida de guiar a manada na grande travessia do rio. Éramos nós duas na casa, da mãe restara apenas a fotografia desbotada na cristaleira da sala. Aprendemos cedo a usar o fogão e o forno. Meu pai não falava em casar-se de novo e nossa era aquela casa. Saía para o trabalho na carvoaria sob um céu cheio de estrelas, voltava, a passos tortos, com o barulho dos baldes rolando pelo chão de cimento. Caiava a casa após a estação de chuvas, mas a meu pedido, nunca a parede no fundo da cozinha. Em Outubro Ana desinteressou-se dos livros, passei a trazer-lhe escondidos alguns lápis de cor. Já não se interessava por eles também, usava ainda os pedaços de carvão na parede escura. Passei a acordá-la no meio da noite, para que tivesse sono pela manhã e eu pudesse ir à escola.
Um dia deparei-me com todas as nossas coisas amontoadas no catre no canto da sala. Ana calçava sapatos e meias e tinha o cabelo penteado muito diferente do jeito que eu cuidava-lhe. Não temi por mim, mas como tirar-lhe a casa, o fogão, a parede riscada? Pela primeira vez eu a vi muito maior que eu. Ela dava-me aquela obediência de presente para que eu não tivesse medo. Cruzei o portão, e fui perdendo a escola, o rio, a mata que corria atrás dele. Olhei para trás o tanto que me foi possível. Ela batia compassadamente o pé no assoalho do carro.
L.A

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

EXTREMA FIDELIDADE- CONTO

...MAS HÁ O ANTES:Era o seu sexto aniversário. O ruído da louça e o cheiro de bolo o trouxeram à cozinha, expiou por detrás da cortina. Puxaram-lhe. Vieram as ordens: Tomar banho, lavar as orelhas, cortar as unhas. Não suje a roupa. Senta aqui. Ah, tira a mão do bolo.

− Como você está bonito!
Chegaram os tios, vieram os primos. Veio aquele presente comprido, outros pacotes. Ah, aquele presente enorme... aquele presente. O tio abriu-o bem debaixo do seu nariz:

− Cuide dele, não deixe ninguém riscar.
Era um espelho. Sobre ele uma gravura chinesa. O menino passou a ser parte da gravura. Vieram os parabéns, o sopro, os abraços. O menino na gravura, grudado nela. O espelho colocado no canto da sala refletia seus olhos grandes. Duplicou a música, triplicou os balões, eternizou o “Viva!”.

− Cuide bem dele.
O dia seguinte acordou-o cedo. Correu à sala. Rastros de bolos no espelho.
Não viu.
A gravura quase branca sobre o vidro era tão...
Viu-as.
Moscas passeavam tranquilamente por seu território. Refletiam as patas sobre o desenho claro. O guardião do templo saiu à porta, olhou os campos. A respiração foi freando, freando, muitas vezes. Desceu-lhe o suor dos grandes guerreiros. Correu à porta da cozinha, puxou a vassoura. Ergueu sua espada por sobre a cabeça e disparou de volta. Antecipando toda a força do homem que um dia haveria de ser, arremessou-a em direção ao inimigo.
O barulho dos cacos acordou a casa, o barulho da casa sacudiu-lhe os ombros.


L.A (dedicado a um amigo , por seu aniversário)

domingo, 11 de janeiro de 2009

O MENINO, O VENTO E O MAR

Porque o mar, tempestuoso ou sereno, árido ou fértil, só nos dá
o que nele formos buscar

Uma vez era, entre tantos outros, um menino
Desses que quando olhava da areia o mar, não olhava, via e ouvia.
Desses que , ainda sob as estrelas , enquanto os outros meninos dormiam, espreitava.
Vinham os homens e arrastavam do jirau as redes,
deslizavam pelas areia seus barcos e suas tralhas.
A culpa era deles que partiam dali , bem em frente à fresta do seu quarto
Ou seria do vento, que cedo lhe soprara boca adentro o cheiro de maresia?
O menino era assim: pasta de areia e água
Lá fora as ondas tangenciavam os cascos
O menino estendia a camisa aberta sobre a cabeça e desancorado, corria.
O menino mareava em terra.
A tarde devolvia os homens, os barcos e os peixes. As pessoas vinham vindo, cercavam os barcos
O menino sentia-se pronto, para o mundo era um menino miúdo
Solitário apresentava-se ao mar, voluntário de um exército ainda futuro.
O vento balançava-lhe a bermuda...
Só ele , o vento e o mar.
Alguém gritou da janela:
_Menino! Entra! Tá frio!
Obedeceu.
Lá fora, o vento velava um barco ao mar
Mar de leitos de rios, água doce em sal.
L.A
PRÊMIO LITERÁRIO
"Anais da Fliporto 2006"- 2º lugar, Festa Literária de Porto De Galinhas-, pp.,18 - EDITORA CIA DO LAZER

domingo, 4 de janeiro de 2009

LIBERDADE CONDICIONAL - CONTO



                                                  Tente acompanhar agora o ruído do relógio, não há como evitar que os ponteiros caminhem. Aí vem o dia que, por se ter provado o fruto, a gente se descobre nu. Mas há os antes e foram estes:



Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregava ninguém perceberia que ia à escola; o uniforme não fora ainda comprado.
 

Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimidade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência não lhe prepararam para isto: tinha um nome estranho.

 Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito como se tivesse sido pega em falta grave, se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a incomodava, como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.
 

O que completava a desordem do dia era caminhar sem ninguém da família por perto e assim aproveitar passo a passo o caminho de volta.
 

Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de amarelinha. A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu-se de seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas, até... não, do nome não: era por enquanto um segredo seu.
 

As duas ouviam em silêncio, sem interromper, até porque não havia espaço.
Aí veio. A mãe chegou-se à janela e gritou:
 

- LILA! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos.
 

Escureceu.
Foi como se todos os príncipes do mundo se perfilassem em sapos.
Levantou-se rápido e entrou. Numa obediência de sentenciado, tirou o vestido e os sapatos, até o laço dos cabelos desmanchou em silêncio.
Colocando o avental e os chinelos não se importou que estivessem sujos todos os copos da casa.
 

Uma coisa era inevitável: no dia seguinte, haveria aula.

LUISA ATAÍDE
( dedicado à Marília Campos)

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