sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

EXTREMA FIDELIDADE- CONTO

...MAS HÁ O ANTES:Era o seu sexto aniversário. O ruído da louça e o cheiro de bolo o trouxeram à cozinha, expiou por detrás da cortina. Puxaram-lhe. Vieram as ordens: Tomar banho, lavar as orelhas, cortar as unhas. Não suje a roupa. Senta aqui. Ah, tira a mão do bolo.

− Como você está bonito!
Chegaram os tios, vieram os primos. Veio aquele presente comprido, outros pacotes. Ah, aquele presente enorme... aquele presente. O tio abriu-o bem debaixo do seu nariz:

− Cuide dele, não deixe ninguém riscar.
Era um espelho. Sobre ele uma gravura chinesa. O menino passou a ser parte da gravura. Vieram os parabéns, o sopro, os abraços. O menino na gravura, grudado nela. O espelho colocado no canto da sala refletia seus olhos grandes. Duplicou a música, triplicou os balões, eternizou o “Viva!”.

− Cuide bem dele.
O dia seguinte acordou-o cedo. Correu à sala. Rastros de bolos no espelho.
Não viu.
A gravura quase branca sobre o vidro era tão...
Viu-as.
Moscas passeavam tranquilamente por seu território. Refletiam as patas sobre o desenho claro. O guardião do templo saiu à porta, olhou os campos. A respiração foi freando, freando, muitas vezes. Desceu-lhe o suor dos grandes guerreiros. Correu à porta da cozinha, puxou a vassoura. Ergueu sua espada por sobre a cabeça e disparou de volta. Antecipando toda a força do homem que um dia haveria de ser, arremessou-a em direção ao inimigo.
O barulho dos cacos acordou a casa, o barulho da casa sacudiu-lhe os ombros.


L.A (dedicado a um amigo , por seu aniversário)

domingo, 11 de janeiro de 2009

O MENINO, O VENTO E O MAR

Porque o mar, tempestuoso ou sereno, árido ou fértil, só nos dá
o que nele formos buscar

Uma vez era, entre tantos outros, um menino
Desses que quando olhava da areia o mar, não olhava, via e ouvia.
Desses que , ainda sob as estrelas , enquanto os outros meninos dormiam, espreitava.
Vinham os homens e arrastavam do jirau as redes,
deslizavam pelas areia seus barcos e suas tralhas.
A culpa era deles que partiam dali , bem em frente à fresta do seu quarto
Ou seria do vento, que cedo lhe soprara boca adentro o cheiro de maresia?
O menino era assim: pasta de areia e água
Lá fora as ondas tangenciavam os cascos
O menino estendia a camisa aberta sobre a cabeça e desancorado, corria.
O menino mareava em terra.
A tarde devolvia os homens, os barcos e os peixes. As pessoas vinham vindo, cercavam os barcos
O menino sentia-se pronto, para o mundo era um menino miúdo
Solitário apresentava-se ao mar, voluntário de um exército ainda futuro.
O vento balançava-lhe a bermuda...
Só ele , o vento e o mar.
Alguém gritou da janela:
_Menino! Entra! Tá frio!
Obedeceu.
Lá fora, o vento velava um barco ao mar
Mar de leitos de rios, água doce em sal.
L.A
PRÊMIO LITERÁRIO
"Anais da Fliporto 2006"- 2º lugar, Festa Literária de Porto De Galinhas-, pp.,18 - EDITORA CIA DO LAZER

domingo, 4 de janeiro de 2009

LIBERDADE CONDICIONAL - CONTO



                                                  Tente acompanhar agora o ruído do relógio, não há como evitar que os ponteiros caminhem. Aí vem o dia que, por se ter provado o fruto, a gente se descobre nu. Mas há os antes e foram estes:



Era o primeiro dia de aula. Além da festa que era calçar sapatos e meias, estava de laços nos cabelos e vestido novo. Não fosse a enorme pasta que carregava ninguém perceberia que ia à escola; o uniforme não fora ainda comprado.
 

Devia ser um dia predestinado a surpresas. Numa intimidade fraterna apresentaram-lhe objetos novos. Prestes a uma nova convivência não lhe prepararam para isto: tinha um nome estranho.

 Sempre atendera a menor junção das sílabas Li e La. Mas, súbito como se tivesse sido pega em falta grave, se foi apresentada. O nome seguia-se de outros, mas o primeiro a incomodava, como se quisessem lhe convencer que um cão miava. Cães e gatos são diferentes, pensou. Marília devia ser um nome para ser usado fora de casa, assim como sapatos e meias.
 

O que completava a desordem do dia era caminhar sem ninguém da família por perto e assim aproveitar passo a passo o caminho de volta.
 

Colocando na calçada a pasta para abrir o portão, percebeu duas amigas brincando de amarelinha. A maior parou com um dos pés no céu, admirada de ver a menina tão grande e linda, empinada como se não existisse o peso da pasta. A menina esqueceu-se de seu tamanho e beleza e sentou-se no chão. Falava sem pausas: dos livros, dos quadros, das salas, até... não, do nome não: era por enquanto um segredo seu.
 

As duas ouviam em silêncio, sem interromper, até porque não havia espaço.
Aí veio. A mãe chegou-se à janela e gritou:
 

- LILA! Vem já tirar esse vestido e lavar os copos.
 

Escureceu.
Foi como se todos os príncipes do mundo se perfilassem em sapos.
Levantou-se rápido e entrou. Numa obediência de sentenciado, tirou o vestido e os sapatos, até o laço dos cabelos desmanchou em silêncio.
Colocando o avental e os chinelos não se importou que estivessem sujos todos os copos da casa.
 

Uma coisa era inevitável: no dia seguinte, haveria aula.

LUISA ATAÍDE
( dedicado à Marília Campos)

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