Minha mais remota lembrança é uma Casa Amarela. Ela tem mais de um andar, eu estou sentada na frente da casa. É uma casa grande e cabem muitas manhãs. Não sei quantos anos eu tenho ao estar sentada diante dela. Não sei se a lembrança atravessou séculos ou são lembranças recentes, de tardes de infância. Acompanha-me a certeza de que existe uma ponte em arcos a poucos quilometros da casa. O rio desliza sob a ponte e a água é turva.
Lembro-me dos tetos altos das cozinhas trançados de palha. Essa lembrança mora do outro lado da memória e cheira a biju assado no forno grande.
Em outros dias, ouço, na memória, o barulho nervoso de patas de cavalos. Estou dentro de casa e por ter medo encosto na parede da sala. Essa memória mora muito distante, é o que sei.
Um dia num leilão vi um sofá colonial vermelho e me encantei com ele. E lá estava eu numa disputa e acabei arrematando. Aquele sofá estava nas minhas lembranças e era preciso reavê-lo.
Na sala, onde moro, tem uma ROSA DOS VENTOS. Eu a vi numa loja de piso do Shopping e fiquei presa no labirito do círculo e as pontas como lança me imobilizaram. Em algm lugar da memória o desenho fez parte de mim. Fui buscá-la.
Chega-me a lembrança de uma presença de menino. Temos a mesma idade e corremos pela casa. Nos acomodamos no mesmo colo de mãe. Em outros dias ele mora na casa vizinha e vem comer bolo de trigo todas as tardes. Fazemos juntos a lição de casa. Em memórias outras que se aproximam ele apenas passa na rua e volta a cabeça enquanto acena de longe. Naquela existência foi a única vez que o vi, através das grades do jardim. Não pude trazê-lo como se faz com mobília e piso de casa.
Quando as centelhas de pensamentos passarem por você antes do sono, acompanhe sem julgamento. Deixe-as circular a cama, o teto, os lençois
. Elas voltam, sempre voltam.
