quarta-feira, 3 de agosto de 2011

(sopro ao ouvido)



Nem tão nus viemos ao mundo
mas protegidos com a maior das armaduras
para o corpo e o espírito: a doçura.

terça-feira, 29 de março de 2011

Três Poemas



JORGE VICENTE- PT


talvez escrever
seja ascender um pouco mais na minha
condição de humano

digo ascender
porque não posso dizer entregar
o corpo ainda não me permite

ainda se sustém
no ritmo das sílabas
na junção de cada uma das palavras,
no encadeamento subtil
de cada respiração
que leva a outra e a outra e a todos os
caules das árvores abertas
ou por abrir

talvez ascender
demore a conjugação do corpo
com o sexo aberto das árvores

e não permita a vivência
e o sentir desmesurado de
ser-se
presente na nascência das folhas.


Fonte: A alma do Jorge
e Revista Triplov

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

QUE OS SINOS DOBREM




Neste Natal,
As casas de Porto Príncipe não acenderão suas luzes
Não há paredes e tetos para serem iluminados.
Os meninos não pedem presentes
Muitos querem, apenas, o colo de mãe e riso de irmão.
Os meninos de Porto Príncipe
Como todos os outros meninos do mundo sonham.
Sonham com banhos em água abundante e limpa
Sonham com uma casa de paredes fortes
Que as cozinhas deixem de habitar as calçadas.
Os meninos de Porto Príncipe sonham
Com os portões das escolas abertos
Com a vida deslizando nos trilhos da rotina.
Neste Natal
Os meninos do Haiti pedem a simplicidade de ser menino.

Luísa Ataíde

sábado, 4 de setembro de 2010

Z?


Ontem à noite, aqui no parque, choveu muito. As folhas acumuladas na última semana  foram-se com a água. Hoje o sol está tão forte que temos que sair de casa antes dele. É preferível que seja, elas começam a chegar depois das sete. Elas, as naves longas e emborrachadas. Cada vez mais ligeiras, passam rente nossas cabeças. O apocalipse é todos os dias.
Todos os dias milhares de nós são dizimados no planeta. Dizem que há guerras imensas neste mundo. São Projéteis gigantes que cruzam o céu. Os mais velhos nos contam que eles matam por muito pouco. Será verdade? È possível, nunca deixaram de nos triturar, mas sabem que existimos, há livros sobre nós, nossa anatomia, histórias inteiras de nossos antepassados. Os mais jovens, às vezes, param e nos observam: então sabemos que não somos invisíveis. Há perigo nisso também. Louvados sejam os bons corações dos meninos.
Dizem que há vida depois do lago. O lago é aquele em que moram os peixes gigantes. Os meninos vão até lá e dão pães aos peixes. Os meninos sorriem, o barulho do riso é agradável. Nossas crianças sorriem em perfeito silêncio, a infância é curta. Mas cá embaixo, depois do grande túnel , a vida é serena. Há lagos sem peixes e muita fartura de folhas. Dividimos o trabalho e as crianças aprendem. Se quisermos as estrelas, vamos até lá fora e, abrimos os braços para elas. Se não houver muita brisa não há perigo. Vivemos aquém do muito. Nem muita chuva, nem muito sol, nem muito vento.
Dizem que o planeta é dez vezes o lago dos meninos e dos peixes. Será que existe um planeta assim? Há em tudo uma centelha divina, nos diz o grande livro. Eles, os meninos e seus pais, devem ter a tal centelha também. Quem sabe um dia já fomos como eles, mas todo o ser vivente, evolui nos diz a extrema Sabedoria. À noite, em círculos, sob as estrelas, damos as mãos e agradecemos. Agradecemos por estar num planeta dez vezes maior que o grande lago, e convivermos com seres tão primários. Fugir sempre deles faz parte do nosso crescimento, quem sabe a última missão até ascendermos em direção às estrelas.

L.A

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MISS ALOA GREEN- CONTO




Being a Caterpillar can seem to be easy, but when everything in your circuit is very big, every day is a dangerous game. 
I am from this garden, it's my home. I see the stars in the dark sky, I feel the wind blowing through the trees.

 I get up early, at four o'clock, before the sun rises. I live under the grove of trees, next to the white wall. I think there is life beyond the white wall, but the earthworms laugh at me; they don't believe it can be true.

However, he does. He is a Catterpiller like me. He is handsome. Every day he walks in front of my window: _ 

Good morning, Miss Aloa! 
-Good Morning! 
- It's nice to see you!
 _ It's nice to see you, too Mr. Gilbert! 

He and his umbrella go at noon.

In the winter, it doesn't snow, but it is very cold. I wear boots. Hom many? Sixteen. 
The summer is my favorite season. There are fruits, flowers and the bird's sing. Thus are the summer days in the South America.
But nothing is perfect in this world. On Saturday the gardener waters the plants. He makes an ocean in our lifes. Then, I go to school by boat. That is not all... when he uses the lawn mower... it is the "Apocalipse".



My greatest fear is Genessis , the Dwarf. He is stooped in the center of the garden. He doesn't speak, he doesn't smile. He is very serious. I think he sleeps there, standing up.








The gardener and his machine , the rains and the Dwarf of the garden are the dark side of paradise. 

However, the big spirit of the woods, Mother Nature, loves us. I learn day by day, I'm learning,  I'm always learning.



 Luisa Ataide





























Luísa Ataíde

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sobre Margaridas, Estrelas, Girassóis e Melancias- CONTO


Pouco sabemos sobre a vida secreta das plantas, o que sentem, o que pensam, como gastam seus melhores momentos. O certo é que naquele dia as margaridas estavam inquietas, movidas pelo mais feminino dos sentimentos: a curiosidade.

_ Com certeza serão girassóis, disseram.

As primeiras estrelas olhavam lá de cima o burburinho das margaridas e discordaram;

_Sem dúvidas, serão melancias! Nós conhecemos as sementes.

_ Melancias? Como vocês podem confundir? Sintam o perfume... e olha que disso nós entendemos.

Bem, como ninguém convenceu ninguém, preparam-se cada qual a seu modo para receber flores e frutos.
Muitas cartas recebeu a chuva; que viesse dia sim e dia não, mas que chegasse com delicadeza, assim sem muito barulho. Outras tantas recebeu o sol, pedindo que quando fosse por lá, passasse antes na casa da brisa, filha mais nova do vento.
À noite as estrelas guardavam os canteiros, torcendo por cada caule fininho que se estendia na terra:
_ Hum... visto assim de longe, nós estávamos certas, os caules se espalham cada vez mais pelo chão... por certo teremos frutos.

Não se cansaram da vigília as margaridas:
_ Ora, visto assim de perto, tínhamos mesmo razão... os caules se erguem do chão... por certo teremos flores.
Como o tempo tira todas as dúvidas, fez dos canteiros entrecortados, um pomar de girassóis num jardim de melancias. E porque margaridas e estrelas diminuindo distâncias acolheram flores e frutos, contam os antigos que ali nasciam flores de sabor adocicado, e no Outono o melhor mapa para encontrar o Jardim das Melancias era colocar o nariz ao vento.

A terra quando expele a semente traz à luz a vontade do semeador porque também assim são os homens; sementes diferentes com histórias diferentes. Se um ponto dessa história de vida seja nos encontrarmos aqui, neste planeta, os que aqui te encontram te acolhem.

Bem-vindos sejamos todos.
L.A

quinta-feira, 9 de abril de 2009

BRUXAS SÃO MEDONHAS



Luisa Ataide

Houve um tempo que reis, palácios, pontes e jardins compunham a paisagem daquele lugarejo, mas vieram as cruzadas e foram-se os reis e seus exércitos.
Das três torres apenas uma resistiu aos bombardeios. As flores sombreadas pelas árvores não mais cresceram e o antigo castelo na entrada da cidade passou a ser uma  casa de pedra e musgo. Os poucos habitantes do lugar quando passavam perto faziam o sinal da cruz. O portão elevadiço não mais descera à ponte e só os corvos atreviam-se em voos rasantes.
Numa noite de violentas chuvas em que raios riscavam o céu escuro, três carroças trazendo uma tribo de ciganos ali pararam em busca de abrigo. Não foram vistos na manhã seguinte e tão pouco nas outras. Desde então ouviam-se nas noites uivos e gargalhadas - mas os dias eram de perfeito silêncio.
Era uma menina linda de cabelos cinzentos e lábios levemente arroxeados. Nascera na casa e a ela pertencia. Quase não via a luz do sol e dormia entre teias e morcegos. Desobedecia ordens maternas e da fresta da torre olhava o vilarejo. Via plantas com cores esquisitas e pequenos morcegos de asas com coloridos mais estranhos ainda.
-Serão aranhas ? Mas pela pressa que voam como fazem suas teias ? E desde quando aranhas voam ? Por certo que são morcegos!
Sua tarefa diária consistia em cozinhar a sopa da família:
 

_Dedos de centopéia, miolo de javali, perna seca de perereca, sete gotas de sangue de filhote de gato, três de urina de sapo... Ah, nunca colocar sal. O sal contém o pecado da purificação e bruxas zelam por ser ...ME-DO-NHAS !
 

Magnólia crescera entre os pátios escuros e estátua de seres tridátilos. Via da torre da casa os trigais tombados pelo vento e moças com tranças da mesma cor que eles. Riam sem motivo nenhum, só parando quando olhavam em direção à torre. Pressentiam serem observadas. Presságio não era então,  privilégio de bruxas. Magnólia achava as moças bonitas, por certo nem tanto quanto ela, pois os espelhos descascados da casa ora a mostrava muito gorda e baixa, ora de extrema magreza e queixo caído.
Mas , o desconhecido nos move o desejo. Resolveu na manhã seguinte, por certo que já era manhã, pois os morcegos se recolhiam, escorregar pela ponte elevadiça . Caiu estatelada nas águas escura do canal:
 

_Tudo por uma boa causa, afinal vou conhecer outras espécies de morcegos e ainda os corvos horrivelmente coloridos. É preciso ensinar a essa gente o que é realmente bonito.
 

Às vezes, um passo em direção à curva e nunca mais se volta. A menina caminhou horas seguidas, empurrada ao abismo do desconhecido. Admirou-se com o vento e com aquelas folhas coloridas que terminavam as plantas. Viu aquelas coisas nas árvores que alimentavam os corvos. Observou que aqueles corvos tinham cores nas penas e até cantavam. Sentiu fome e puxou da árvore o fruto:
  

- Até que não é tão ruim. Acho que vou acabar me acostumando.
 


Acostumou-se aos dias de sol e tardes de chuvas, com as estrelas e cantigas de roda. Fez amigos e tornou-se uma moça linda... de cabelos cinzentos e lábios arroxeados. Era uma moça... bem... só um pouco diferente. Conheceu um Oficial da Cavalaria que encantou -se com seu jeito melancólico e sua esquisitices. Casou-se e teve muitos filhos. Seus dias foram claros e escuros, e ainda hoje os estende como um grande lençol ao vento.
 

A cada sete Invernos retorna a casa de pedras, para revigorar as energias. Conta aos filhos histórias de bruxas, fortalezas e caldeirões. Ensinou-lhes a manipular porções para as dores da alma e a conversar com plantas e gatos. Os netos de seus netos espalharam-se pelo mundo.

É gente de conteúdo intenso que transcende a compreensão, com os dois pés no chão da realidade. É gente humilde, simplória. É gente que tem idealismo na alma e no coração, que traz nos olhos a luz do amanhecer e a serenidade do acaso. Ri, chora, se emociona com uma simples carta, um telefonema, uma canção suave, um bom filme, um bom livro, um gesto de carinho, um abraço, um afago. É gente que ama e curte saudades, gosta de amigos, cultiva flores, ama os animais. Admira paisagens. Poeira traz lembranças de chão curtido de sonhos passados. Escuta o som dos ventos. Dança a dança do mundo pelo simples prazer de dançar. É gente que tem tempo pra sorrir bondade, semear perdão, repartir ternura, compartilhar vivências e dar espaço para ternura dentro de si. Emoções que fluem naturalmente dentro do seu ser! È gente que gosta de fazer as coisas que gosta, sem fugir de compromissos difíceis e inadiáveis, por mais desgastantes que sejam. Gente que semeia, colhe, orienta, se entende, aconselha, busca, busca a verdade e que sempre aprende, mesmo que seja de uma criança, de um pobre, de um analfabeto. È gente muito estranha as Bruxas. Gente de coração desarmado, sem ódios e preconceitos baratos. Gente que fala com plantas e bichos.Dança na chuva e alegra-se com o sol. Cultuam a lua como Deusa e lhe fazem celebrações... Eh! Gente estranha essas bruxas. Falam de amor com os olhos iluminados como um par de luas cheia. Gente que erra e reconhece, cai e se levanta com a mesma energia das grandes marés, que vão e voltam em harmoniosa cadência natural. Apanha e assimila os golpes, tirando lições dos erros, e fazendo redentores suas lágrimas e sofrimentos. Amam com missão sagrada e distribuem amor com a mesma serenidade que distribuem pão. Coragem é sinônimo de vida, seguem em busca de seus sonhos, independentes das arguras do caminho. Essa gente, vê o passado como referencial, o presente como luz e o futuro como meta. São estranhas as bruxas! Acreditam no poder feminino e estão sempre fazenda da maternidade sua maior magia e através da incessante busca pela paz chegam à divindade de existir pelo amor da grande Mãe, a natureza. Da mesma forma que produzem um grande visual, de elegância refinada com as raias da vaidade, se vestem como verdadeiras Bruxas medievais a caminho do patíbulo. Iluminam de beleza e jovialidade o corpo físico com habilidade mágica e com facilidade transforma-se, permitindo um sóbrio aspecto de velha senhora , a depender da lua nos seu espírito...Cultuam as sagradas tradições como forma de cultuar as leis que regem o universo, passam de geração a geração a fonte renovadora da sabedoria milenar. São fortes e valentes, ao mesmo tempo humildes e serenas. São leoas e gatinhas, são muito estranhas as bruxas Com a mesma facilidade que manuseiam livros codificados , o fazem com panelas e vassouras...São aventureiras, dançam rock,valsas e polka, danças sagradas e inventam o que precisa ser inventado.Criam e recriam. Contam contos e histórias de fadas e carochinha, contam suas próprias histórias...Falam de generosidade e de todas as deidades em exercícios constantes, buscam a plenitude como propósito...Interessante essa gente, essas Bruxas. Se obrigam a tarefa de evoluir, de amar e dividir...falam de desapego em plena metrópole, em meio às tecnologias. Cantam mantras e músicas populares, mas se emocionam com as folclóricas. Mexem com ervas e chás, são primitivas e avançadas. Pulam da mesa do rei para um abrigo montanhês com o mesmo sorriso enigmático de prazer e sabedoria que iluminava as faces de suas ancestrais. Degustam um pão artesanal, receita medieval da velha senhora das montanhas, com a mesma gula que o fazem com um banquete cinco estrelas com pães supersofisticados daquela cozinha francesa. Amam em esteiras e em grandes suítes, desde que estejam felizes, pois ser feliz é sempre a única condição dessa gente estranha. É gente que compra briga pela criança abandonada, pelo velho carente, pelo homem miserável, pela falta de respeito humano. È gente que fica horas olhando as estrelas, tentando decifrar seus mistérios e sempre conseguem. Gente que lê em fundos de xícaras, em bola de cristal, em tarot, com pedras, na areia, nas nuvens, no fogo, no copo d’agua...Oram pelos elementais, anjos e gnomos. Falam com intimidade com os Deuses e o chamam para um círculo, fazem fogueira e dançam em volta...Viajam de avião, à pé, de carro e em lombos de animais, agradecendo pelas oportunidades que a vida lhes dá... agradecem por tudo até pela dor, que chamam de mãe, pois acreditam que é a forma mais rápida para a evolução... Se reúnem em escolas iniciativas que chamam de coven, para mutuamente se bastarem,se protegerem,se resguardarem, resgatar valores, estudar. Muito estranha as bruxas, muito estranha a fé que as mantém vivificadas ao longo de cinco mil anos...”
Texto entre aspa- Gente estranha, de Graça Lúcia Azevedo

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