sábado, 3 de janeiro de 2015

PRIMEIRO DIA





Fernando Henrique de Passos




A luz ubíqua

O mar feito de luz

E as rochas, as pedras, as pessoas

E a poesia que nasce debaixo dos meus pés,

Matéria e Espírito:

Flocos de luz

Arrancados ao seio luminoso desta tarde

Beleza em fúria

A ânsia nos olhos e nas asas

Os pedaços de pão podre esfacelados

Pelos ávidos bicos das gaivotas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

ELAS






Ela chegou na primavera, e disse que tinha fome. Passou alguns dias aceitando as migalhas que eu estendia na varanda, e depois pediu para dormir em qualquer canto da casa. Pelo estado de magreza e desilusão aparente, deixei que ficasse. Começou a engordar rapidamente. Consultei os oráculos do google e a resposta era sempre a mesma: "Se um gato vira-lata adotar a sua casa, é porque você está precisando dele, mais do que ele de você, e observe se engordar rapidamente ─ é porque está se nutrindo das energias negativas dos cantos da casa. Não se preocupe, ele tem meios práticos de eliminar isso." Rimos.
A incredulidade do meu marido era mais realista e sentenciou: ela está grávida. Bem, os dias passaram e ela florescia em felicidade. Passou a exigir leite fresco após o jantar e acordava muito cedo para o desjejum. Ora, precisamos trabalhar a tolerância, mesmo nas manhãs frias de domingo.
─ Mãe a gatinha, sumiu tem dois dias.
─ Mãe tem alguma coisa esquisita no meu armário.
─ Mãe, vem cá.
O milagre da vida é assim. Quatro lindas mocinhas de olhos assustados passaram a morar numa caixa, no guarda-roupa do filho do meio. O mesmo, que há alguns anos, esmagou com os pés desatentos o pinto cor de rosa, comprado na feira. Carmas te acompanham, dizem.
Atravessados dois meses, após nosso olhar apaixonado diante dos minúsculos passos no tapete da sala, a população felina causa-nos problemas. Problemas que fico tentada a esquecer quando a gatinha olha com seus olhos azuis a borboleta atravessar a sala, ou quando elas descobriram as bolinhas de ping-pong e fizeram uma partida, sem regras de vencedores, com muita alegria. Lembrei de como os antigos resolviam isto, lá na roça: amarravam os gatos num saco e os jogavam no rio, levados pelo cruel destino.
Apesar dos ciúmes da cadela da casa, elas já fazem parte dos nossos dias e ouço alguém dizer:
─ Quando se forem, vamos ter saudade.
Talvez consigamos convencer os amigos a adotá-las, ou irão todas morar na periferia, numa viagem de ida de duas horas, num coletivo fadado a quebrar na estrada. Lá as espera um quintal de terra, com uma casa velha de canino, cujo dono as olhará de longe, sem boas-vindas. Um dia, serão mães solteiras, num mundo movido pela irresponsabilidade masculina e procurarão um lugar seguro para esconder a cria.
Começo a arrumar a árvore de natal e elas pulam entre os enfeites, jogam para o alto o que encontram e penso:
─ O meu amor incondicional, é limitado. Se encanta pelo olhar azul de um filhote de gato, mas não há espaço para ele na minha vida. Se aborrece com o runronar matutino da ninhada e ter de levantar para alimentá-la. Aceita dividir o pão, desde que isso não quebre minha rotina e não me canse.
Assim nós amamos o mundo, com a delicadeza de não sermos incomodados. Sem comprometer espaços e agendas. Fazemos isso com nossos velhos e com os que querem vir para nossas vidas. Negligenciamos a vida plena. Podíamos neste natal nos presentear com um projeto de demolição. Poderíamos nos preparar para demolir a solidariedade de fachada e edificar um olhar mais demorado sobre o outro. Seu infortúnio, seu abandono, sua tristeza. Sua alegria que precisa ser libertada.
Precisamos renovar tudo.

Luísa Ataíde

domingo, 16 de novembro de 2014

TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO


Manoel Barros


"A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)."


Fotografia - Hogan Waked

sábado, 30 de agosto de 2014

IPÊS



Luiz Martins da Silva


I

Mais uma vez,
Amarelos,
Os ipês.



II

Mais uma vez,
Roxos,
Os ipês.



III

Mais uma vez,
Brancos,
Os ipês.



IV

Mais uma vez,
E sempre,
Os ipês.



V

Novas gerações
Contemplarão ipês,
Depois de nós.
 

sábado, 26 de julho de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

RUBEM ALVES



''Amar é ter um pássaro pousado no dedo
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar."

sábado, 14 de junho de 2014

LOS DIOSES RECOSTADOS



PABLO NERUDA
.
..Por todas partes las estatuas de Buda, de Lord Buda... 
Las severas, verticales, carcomidas estatuas, con un dorado como de resplandor animal, con una disolución como si el aire las desgastara... 

Les brotan en las mejillas, en los pliegues de la túnica, en codos y ombligos y boca y sonrisa, pequeñas máculas: hongos, porosidades, huellas excrementicias de la selva... 

O bien las yacentes, las inmensas yacentes, las estatuas de cuarenta metros de piedra, de granito arenero, pálidas, tendidas entre las susurrantes frondas, inesperadas, surgiendo de algún rincón de la selva, de alguna circundante plataforma...

Dormidas o no dormidas, allí llevan cien años, mil años, mil veces mil años...

Pero son suaves, con una conocida ambigüedad metaterrena, aspirantes a quedarse y a irse... 

Y es sonrisa de suavísima piedra, es majestad imponderable hecha sin embargo de piedra dura, perpetua, a quién sonríen a quiénes, sobre la tierra sangrienta? ...

 Pasaron las campesinas que huían, los hombres del incendio, los guerreros enmascarados, los falsos sacerdotes, los devorantes turistas... 

Y se mantuvo en su sitio la estatua, la inmensa piedra con rodillas, con pliegues en la túnica de piedra; con la mirada perdida y no obstante existente, enteramente inhumana y en alguna forma también humana, en alguna forma o en alguna contradicción estatuaria, siendo y no siendo dios, siendo y no siendo piedra, bajo el graznido de las aves negras, entre el aleteo de las aves rojas, de las aves de la selva... 

De alguna manera pensamos en los terribles Cristos españoles que nosotros heredamos con llagas y todo, con pústulas y todo, con cicatrices y todo, con ese olor a vela, a humedad, a pieza encerrada que tienen la iglesias...

Esos Cristos también dudaron entre ser hombres y dioses... 
Para hacerlos hombres, para aproximarlos más a los que sufren, a las parturientes y a los decapitados, a los paralíticos y a los avaros, a la gente de iglesias y a la que rodea las iglesias, para hacerlos humanos, los estatuarios dotaron de horripilantes llagas, hasta que se convirtió todo aquello en la religión del suplicio, en el peca y sufre, en el no pecas y sufres, en el vive y sufre, sin que ninguna escapatoria te librara...

 Aquí no, aquí la paz llegó a la piedra... 

Los estatuarios se revelaron contra los cánones del dolor y estos Budas colosales, con pies de dioses gigantes, tienen en el rostro una sonrisa de piedra que es sosegadamente humana, sin tanto sufrimiento...

Y de ellos mana un olor, no a habitación muerta, no a sacristía y telarañas, sino a espacio vegetal, a ráfagas que de pronto caen huracanadas, con plumas, hojas, polen de la infinita selva...

-- Pablo Neruda, "Confieso que he vivido" --


Gentilmente enviado por Sinval Aragão





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