terça-feira, 29 de setembro de 2026

NORTE OU SUL?

 





Minha mais remota lembrança é uma Casa Amarela. Ela tem mais de um andar, eu estou sentada na frente da casa. É uma casa grande e cabem muitas manhãs. Não sei quantos anos eu tenho ao estar sentada diante dela. Não sei se  a lembrança atravessou séculos ou são lembranças recentes, de tardes de infância.  Acompanha-me a certeza de que existe uma ponte em arcos a poucos quilometros da casa. O rio desliza sob a ponte e a água é turva.

 Lembro-me dos tetos altos das cozinhas trançados de palha. Essa lembrança mora do outro lado da memória e cheira a biju assado no forno grande.

Em outros dias, ouço, na memória, o barulho nervoso de patas de cavalos. Estou dentro de casa e por ter medo encosto na parede da sala. Essa memória mora muito distante, é o que sei.  

Um dia num leilão vi um sofá colonial vermelho e me encantei com ele. E lá estava eu numa disputa e acabei arrematando. Aquele sofá estava nas minhas lembranças e era preciso reavê-lo. 

Na  sala, onde moro,  tem uma ROSA DOS VENTOS. Eu a vi numa loja de piso do Shopping e fiquei presa no labirito do círculo e as pontas como lança me imobilizaram. Em algm lugar da memória o desenho fez parte de mim. Fui buscá-la. 

Chega-me a lembrança de uma presença de menino. Temos a mesma idade e corremos pela casa. Nos acomodamos no  mesmo colo de mãe. Em outros dias ele mora na casa vizinha e vem comer bolo de trigo todas as tardes. Fazemos juntos a lição de casa. Em memórias outras que se aproximam ele apenas passa na rua e volta a cabeça enquanto acena de longe. Naquela existência foi a única vez que o vi, através das grades do jardim. Não pude trazê-lo como se faz com mobília e piso de casa.

Quando as centelhas de pensamentos passarem por você antes do sono, acompanhe sem julgamento. Deixe-as circular a cama,  o teto, os lençois
. Elas voltam, sempre voltam. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

PRIMEIRO DIA





Fernando Henrique de Passos




A luz ubíqua

O mar feito de luz

E as rochas, as pedras, as pessoas

E a poesia que nasce debaixo dos meus pés,

Matéria e Espírito:

Flocos de luz

Arrancados ao seio luminoso desta tarde

Beleza em fúria

A ânsia nos olhos e nas asas

Os pedaços de pão podre esfacelados

Pelos ávidos bicos das gaivotas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

SEMPRE

Quando o Cristo deu-nos a expressão matemática dos setenta vezes sete, trouxe-nos o exercício diário de muitas vezes fazer. Deu-nos a dedicação e a disciplina dos ouríveres ao trabalhar a joia, do químico destilando o líquido , dos jardineiros que todos os dias podam as ervas insistentes e nocivas que impedem a flor. Refazer, até que o exercício diário seja natural como o deslizar manso das águas do rio, natural como o bater das asas do pequeno pássaro .Até que se transforme na simplicidade de ser Perdão. (Sopro ao ouvido- 5/12/2012) Postado por Luísa Ataíde às 20:54 Nenhum comentário: Links para esta postagem

sexta-feira, 4 de maio de 2012

METADE DE UM CORAÇÃO




 Autor Desconhecido


Era um dia muito especial no céu. Jesus estava olhando seus escolhidos para virem viver na terra...seriam os próximos a nascer...Um dos anjos diz docemente a Jesus: “Eu não quero ir para terra, Senhor é tão bom viver aqui ao seu lado, no céu...vou sentir saudades.” Jesus tranquiliza o pequeno anjo dizendo que tudo ficará bem, que Ele cuidará do seu pequeno anjo sempre, com todo amor.

Como o pequeno anjo ainda não estivesse convencido que isso era uma boa ideia, Jesus diz: “Então deixe aqui comigo a metade do seu coração e leve a outra metade com você. Você vai ficar bem!” O anjo sorri. Jesus diz:”Aproveite seu tempo com sua família, brinque e ria todos os dias. E quando for o seu tempo de voltar para o céu, vou fazer novamente inteiro o seu coração!” Lembre-se sempre que você não está quebrado, nem com um defeito, apenas dividido entre dois amores.” O anjo novamente sorri e diz:”Eu acho que vai funcionar”. Mas no seu íntimo o anjo ainda está um pouco assustado, e pergunta:”Tem certeza que ficarei bem com apenas metade do meu coração? Jesus responde: “É claro que sim, pois eu tenho muitos outros anjos que enviarei à Terra que irão cuidar especialmente de você, e te ajudarão a ficar bem e a ser feliz! Então Jesus dá ao anjo mais detalhes sobre o seu plano: “Quando você nascer, sua mãe vai ter medo, por isso você tem que ser forte, para ajudá-la a superar todos os seus medos, e quando você se sentir fraco lembre-se sempre:

GUARDO COMIGO A OUTRA METADE DO SEU CORAÇÃO!”

Davi de Souza *17/03/2011 + 03/04/2012

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

(sopro ao ouvido)



Nem tão nus viemos ao mundo
mas protegidos com a maior das armaduras
para o corpo e o espírito: a doçura.

terça-feira, 29 de março de 2011

Três Poemas



JORGE VICENTE- PT


talvez escrever
seja ascender um pouco mais na minha
condição de humano

digo ascender
porque não posso dizer entregar
o corpo ainda não me permite

ainda se sustém
no ritmo das sílabas
na junção de cada uma das palavras,
no encadeamento subtil
de cada respiração
que leva a outra e a outra e a todos os
caules das árvores abertas
ou por abrir

talvez ascender
demore a conjugação do corpo
com o sexo aberto das árvores

e não permita a vivência
e o sentir desmesurado de
ser-se
presente na nascência das folhas.


Fonte: A alma do Jorge
e Revista Triplov

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

QUE OS SINOS DOBREM




Neste Natal,
As casas de Porto Príncipe não acenderão suas luzes
Não há paredes e tetos para serem iluminados.
Os meninos não pedem presentes
Muitos querem, apenas, o colo de mãe e riso de irmão.
Os meninos de Porto Príncipe
Como todos os outros meninos do mundo sonham.
Sonham com banhos em água abundante e limpa
Sonham com uma casa de paredes fortes
Que as cozinhas deixem de habitar as calçadas.
Os meninos de Porto Príncipe sonham
Com os portões das escolas abertos
Com a vida deslizando nos trilhos da rotina.
Neste Natal
Os meninos do Haiti pedem a simplicidade de ser menino.

Luísa Ataíde

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